segunda-feira, 27 de junho de 2016

Mãe de menina

Ser mãe de menina era algo que eu temia, por um lado, desde que me tornei mais consciente do feminismo. Eu me preocupava com os desafios de como educá-la e como lidar com o mundo machista em torno dela. Sempre achei que seria mais fácil ter filho homem, pois assim eu não teria que lidar tanto com questões do feminino na hora de ser mãe. Não teria que mexer tanto dentro de mim mesma, nas questões minhas com a minha própria mãe, e nas relações com os outros também. Afinal ser feminista sozinha já é desafiador!

Sempre amei ser mãe do meu garoto e não tinha problema nenhum em ter outro quando engravidei pela segunda vez. Mas bem dizem que se você deseja algo muito, aquilo se materializa. E meu sonho de ter um casal desde que me lembro por gente se concretizou. Hoje sou a feliz mãe de uma linda menina e de um grande garotão.

E como eu suspeitava, mas não imaginava que seria tão cedo, os desafios do sexismo já chegaram sorrateiramente às conversas descompromissadas do dia a dia.  

Comparações entre filhos são completamente inevitáveis, eu as faço, claro. Mas o que vem me incomodando são as comparações entre filhos de sexo diferente. Como se certas coisas que minha filha faz ou não faz fossem “culpa” do seu gênero, e não meramente de sua natureza. E isso eu não curto.

Minha filha é mais manhosa, é mais chorona, fica mais magoada com coisas poucas. Ela tem apenas 8 meses, mas percebo isso claramente. E acho normal. Ela simplesmente é assim. Mas quando conto isso para os outros, lá vem a frase “ah, mas é porque ela é menina...”. Grrrrrr! Eu sei que quem diz isso não tem a intenção, e eu sei que eu venho me tornando a rainha da problematização, mas nessa frase está sim incutida uma noção sexista de que mulheres e homens agem de certa forma. Por essa razão, sutilmente eu insiro na conversa que acho que não, que cada ser humano tem seu jeito de ser.

Um bom exemplo disso são os filhos de uma amiga, um casal também. Certa vez ela falou “a minha filha é mais mulher, independente”. Eu então comentei “acho que isso não é porque ela é mulher... meu filho é o mais independente desde que nasceu, minha filha é mais grudinho da mãe”, ou seja, seus filhos são diferentes, porque são, como os meus. Tanto é que o que você chama de característica feminina na sua filha, é o inverso do que outras pessoas dizem ser uma característica feminina da minha filha. Percebe como parece que qualquer coisa que você falar do comportamento da sua filha vai ser explicado pelo fato de ela ser mulher?

Minha proposta então, no momento, é esta: vamos tentar não rotular o jeito de ser das nossas crianças, e simplesmente tratá-las como crianças e como seres humanos únicos que são?


E por hoje, nesses oito meses de mãe de menina que sou, a tarefa de casa é essa.